Cartões de Abastecimento em Moçambique
Fichas da Sobrevivência: A Memória da Escassez e a Resiliência Pós-1986 em Moçambique
A Resposta à Crise e o Sistema Oficial de Racionamento
A turbulência que se abateu sobre Moçambique após a independência, agravada pela guerra civil e pela centralização económica, impôs desafios dramáticos à capacidade do país de alimentar a sua população. Foi neste contexto de profunda escassez que o governo implementou um sistema rigoroso de distribuição controlada de bens essenciais. As fichas, ou Cartões de Abastecimento, tornaram-se o instrumento central deste esforço nacional.

As fichas eram os cartões de abastecimento alimentar que o governo moçambicano utilizava para fazer uma distribuição equitativa dos mantimentos que estavam disponíveis para não faltar alimento durante o mês. A distribuição era feita mensalmente, porém, as quantidades dependiam diretamente da dimensão do agregado familiar. Além disso, as proporções dos alimentos variavam mensalmente, porque dependiam intrinsecamente da capacidade real de abastecimento que o país demonstrava em cada período. O sistema não visava simplesmente controlar, mas garantir que, face à realidade da escassez, a pouca comida existente chegasse a todas as casas. Assim, o papel do governo era gerir a escassez, uma tarefa monumental em tempos de guerra.
Os Números de 1986 e a Realidade da Falta de Produto
Quem diria que hoje ainda teríamos que interpretar uma ficha destas? A informação publicada pelo Diário do Notícias, a 25 de Abril de 1986, deixa as instruções das quantidades de alimentos a serem distribuídos no mês de Maio do mesmo ano, fornecendo-nos um vislumbre fascinante das restrições da época.

Num agregado familiar, os chefes de família recebiam 5kg de cereais por cada membro do agregado. Desta quantidade, 2,5kg seriam de arroz, e o restante destinava-se a outros cereais, como milho, farinha de milho e massas. A quantidade de açúcar distribuído seria de 1kg por pessoa, por fim, a ração de peixe atingia meio quilo por indivíduo.
O texto oficial esclarecia uma realidade económica chocante: não havia comida, contudo, havia dinheiro. Portanto, o problema não era a falta de poder de compra dos cidadãos, mas a ausência física de produtos básicos nas cadeias de fornecimento. As quantidades de alimentos que as famílias podiam adquirir estavam estritamente limitadas pelo Estado. Ademais, a escassez não se limitava aos bens alimentares: os bens não duráveis, como pilhas, também faziam parte do racionamento, sendo distribuídas apenas quatro unidades por família. As pilhas desempenhavam um papel fundamental na comunicação e iluminação, sendo utilizadas em rádios e lanternas, conferindo-lhes um valor estratégico incalculável nas cidades. Dessa forma, o sistema de fichas controlava o essencial para a sobrevivência diária.
A Desenvoltura Artística e a Subversão do Racionamento
Se o sistema de racionamento impunha regras rígidas no papel, a vida real exigia engenho e flexibilidade. A história conta-se através das recordações secretamente artísticas de cidadãos que encontraram formas criativas de contornar as restrições.
Dona Lina (nome fícticio), recorda-se do ano de 1986 com nostalgia: “éramos uma família de 4, porém, as regras das fichas nem sempre eram seguidas à risca”, explicou com entusiasmo. Muitas vezes, os cidadãos realizavam trocas e escambos, criando um mercado informal paralelo que garantia que as necessidades e preferências individuais fossem satisfeitas.
Por exemplo, a dona Lina trocava a farinha de milho por arroz com as empregadas. O milho, em particular, era a sua preferência, ainda mais porque o seu companheiro, Raul (nome fícticio), começou a fazer deliciosas broas de milho. Similarmente, muitas famílias trocavam a sua ração de açúcar por óleo ou vice-versa, dependendo da sua necessidade imediata de cozinhar. Este mercado de trocas funcionava como uma válvula de escape essencial para a rigidez do sistema, permitindo alguma margem de escolha num ambiente altamente restrito. Em suma, a desenvoltura da população demonstrou uma resiliência notável, transformando as Fichas de Abastecimento de um símbolo de escassez numa tela para a criatividade e o espírito comunitário.

