Rua Araújo: Ascensão e Queda
A Rua Mais Polémica de Maputo
Queiramos ou não, a cidade de Maputo como a conhecemos hoje surgiu, em parte, graças à Rua Araújo. Além disso, poucos espaços urbanos concentraram tanta história, contradições e mudanças sociais num único lugar. Achas exagero? Então senta, porque esta história explica muito mais do que apenas o nome de uma rua.

Rua Araujo nos anos 60 (Fonte: Mozambique in Heart)
A Origem do Nome Rua Araújo
Antes de tudo, importa esclarecer de onde vem o nome Rua Araújo. O topónimo presta homenagem a Joaquim Araújo, primeiro Governador do Presídio de Lourenço Marques, nomeado em 1781. Posto isto, é possível compreender como esta rua começou a ganhar relevância na organização urbana da então colónia.
Tudo muda, contudo, ao fim da tarde de 12 de Setembro de 1875, quando um incêndio de grandes proporções destrói quase toda a rua, desde os Caminhos de Ferro até à actual zona do Banco de Moçambique. Naquele período, as casas eram maioritariamente de madeira e zinco, o que facilitou a propagação do fogo.
Como resultado da tragédia, o governador ordenou a construção de habitações mais resistentes. Um empreiteiro foi contratado e, dessa forma, não surgiu apenas uma nova Rua Araújo, mas sim o embrião de uma cidade com estruturas mais duráveis. Assim, Maputo começou a ganhar uma nova configuração urbana.
A Ascensão da Rua Araújo e o Explosão do Lazer
Após a reconstrução, um novo factor impulsionou a importância da rua. A África do Sul, país que faz fronteira com Moçambique pela província de Maputo, descobriu grandes reservas de ouro e precisava de um porto eficiente para escoar a produção. O Porto de Maputo tornou-se a opção mais viável e, como consequência, a baixa da cidade transformou-se num centro vibrante de circulação económica e social.

Porto de Lourenço Marques (Fonte: Picryl)
Além disso, o lazer acompanhou o dinheiro. Salas de dança, cabarés, casas de jogo e até casinos começaram a surgir ao longo da Rua Araújo. Muitos boeres ricos, sobretudo vindos de Joanesburgo e Pretória, deslocavam-se propositadamente para se divertir. Na África do Sul, o jogo era proibido, mas em Maputo, não.
Para facilitar essas deslocações, existia o famoso Blue Train, que partia da Paragem Versalhes em direcção a Pretória. Assim, a Rua Araújo consolidou-se como ponto de encontro da elite colonial, reservada quase exclusivamente a pessoas ricas e influentes.
O Início da Queda: Igreja, Poder e Moralidade
O declínio começa nos anos 1940. Em Portugal, Oliveira Salazar enfrentava instabilidade política e procurou reforçar o seu poder através de uma aliança com a Igreja Católica. Como resultado dessa aproximação, em 1944, o Bispo de Lisboa deslocou-se a Maputo para inaugurar a Catedral de Maputo, estrategicamente localizada junto ao Conselho Municipal.
A partir daí, a Igreja impôs novas normas morais. A prostituição e o jogo passaram a ser fortemente reprimidos. Contudo, a Rua Araújo ainda resistiu durante algum tempo, mantendo parte da sua vida nocturna.
O Golpe Final e o Novo Nome
Nos anos 1960, com a institucionalização do Apartheid e o início da Guerra de Independência, Maputo voltou a fervilhar. Todavia, esse período marcou mais um momento de excesso do que de estabilidade.
O verdadeiro golpe final ocorre em 1975, com a Independência de Moçambique. O novo Estado condenou oficialmente as práticas associadas à rua e decidiu rebatizá-la como Rua Bagamoyo. Apesar disso, o nome antigo permanece vivo na memória colectiva, porque certos lugares carregam mais história do que placas.
Dessa forma, a Rua Araújo foi muito mais do que um espaço de lazer. Tornou-se reflexo do poder colonial, da economia regional, da moral religiosa e, por fim, da transformação política de Moçambique.
Adaptado de Bruno Jaime via Facebook

