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O Bairro da Mafalala

Mafalala: cores, história e o coração vivo de Maputo

Cores, arte, entretenimento e gente boa…
Assim começa qualquer conversa sobre o lendário bairro da Mafalala, um dos lugares mais vibrantes e simbólicos de Moçambique. Localizado no distrito urbano KaMaxaquene, na cidade de Maputo, este bairro carrega a essência do país, preservando valores, tradições e memórias colectivas que atravessam gerações.

Mas antes da Mafalala que conhecemos hoje, existiu outro nome: Xitala Mati, que significa lugar onde as águas enchem. Um território de caminho, areia e mata baixa, habitado inicialmente por povos ronga e changana que circulavam pela zona muito antes da urbanização de Lourenço Marques. Contudo, o bairro renasceu com uma nova identidade no século XX, quando uma comunidade muçulmana vinda de Nampula se instalou no local e deixou marcas profundas na língua, na cultura e no quotidiano.

Foi deles que nasceu o nome “Mafalala”, inspirado na brincadeira infantil de saltar a corda, acompanhada pela canção “Mfalala”. Uma música leve que ecoava nas ruas de areia e acabou por batizar aquele que se tornaria um dos bairros mais icónicos da cidade.

Um bairro recente, mas com história antiga

Embora o nome Mafalala seja associado a tempos mais modernos, o território tem raízes coloniais profundas. Os locais eram impedidos de viver na zona central de Lourenço Marques e empurrados para áreas marginais como Xitala Mati. Ali começou a surgir um grande mosaico cultural feito de povos:

  • Ronga e Changana, habitantes originais da região;

  • Migrantes de Nampula, sobretudo muçulmanos;

  • Grupos do centro e norte: Macua e Sena;

  • Operários vindos do Malawi, Zimbabué, Tanzânia e África do Sul;

  • Famílias deslocadas do sul de Moçambique;

  • Pequenos comerciantes muçulmanos e moçambicanos com ascendência indiana.

A Mafalala tornou-se um encontro de mundos com casas construídas de madeira e zinco e vedações de arbustos curtos e espinhosos. Um bairro periférico de ruas estreitas que serpenteiam a terra e dão a todos os lugares, mas dono de um espírito incomparável: criativo, resiliente e cheio de vida.


O bairro da Mafalala (Fonte: Maputo Explorers via Facebook)

Passear pela Mafalala é descobrir Moçambique

Ao caminhar pelas ruas do bairro, descobrimos murais coloridos, grupos a dançar tufo, rodas de conversa, sons de batuques, futebol na areia e crianças e jovens a demonstrarem as suas habilidades artísticas e talentosas com orgulho.


Fotografias de Tobias Neumann

É fácil cruzar com as lendárias “bibliotecas moçambicanas”, os nossos queridos vovós, sentados à sombra das árvores, prontos para dar ensinamentos que não aparecem em nenhum livro. Com eles, é possível descobrir e redescobrir histórias e um novo mundo até então desconhecido para os viventes mais recentes neste país.


Fotografias de Tobias Neumann

Muitas vezes estes “madalas” encontram-se a jogar o Ntxuva, jogo popular e muito aderido nos bairros periféricos da cidade de Maputo.


Homem a jogar ntxuva

Comércio em comunidade

Pelas ruas, vê-se também bancas onde ocorrem trocas comerciais de diversos tipos, principalmente de insumos domésticos. Algumas são improvisadas nas varandas ou nos quintais das residências.


Fotografias de Tobias Neumann

Outras bancas são montadas na rua, em mesas de madeira, ou em mesas improvisadas com uma base de lata, caixa de refresco ou de cerveja ou um bidão. Outras ainda são estendidas num saco de rafia ou sisal no chão, afixado diariamente no chão com pedras.


Fotografias de Tobias Neumann

Ouve-se o grito das vendedoras ambulantes que carregam bacias na cabeça de magumba (peixe do mar) ou do munhû (sal), ou sacos da macoufe (couve) e salada (alface), ou outras verduras (matapa, nhangana, mboa). Assim, os gritos matutinos «haaaaaa magumba alenuuuuu», «haaaaa macoufo alenuuuuuuu» ou «haaaaaa munhû alenuuuuuu» indicam o nascer do sol, representando o início do quotidiano da comunidade que configura a vivência em Moçambique.

Berço e local de acolhimento de grandes figuras de Moçambique

Há também espaços onde a arte se mistura com a memória: casas históricas e travessas que viram o nascimento de movimentos políticos, culturais e desportivos. A Mafalala foi casa de algumas das personalidades mais marcantes da literatura, cultura, desporto e política do país, como por exemplo:

José Craveirinha

Poeta, jornalista e escritor, nasceu na Mafalala a 28 de Maio de 1922. Autor de Karingana ua Karingana, é considerado o maior poeta moçambicano. Grande parte da sua obra espalhou-se pela imprensa, mas continua viva na memória colectiva.

Eusébio da Silva Ferreira

O lendário futebolista, conhecido como Pantera Negra, Pérola Negra ou King, nasceu na Mafalala a 25 de Janeiro de 1942. Tornou-se um dos maiores jogadores da história mundial, famoso pela velocidade, técnica e pelo seu remate poderoso.


Fotografia de Tobias Neumann

Noémia de Sousa

Poeta e militante política, viveu numa casa de madeira e zinco na década de 1940. Ali escreveu poemas icónicos como “Deixa passar o meu povo”, que se tornaram símbolos do nacionalismo africano. Abandonou o bairro em 1949 por motivos políticos.


Mural de Noémia de Souza no bairro da Maxaquene (Fotografia do autor)

Samora Machel

Primeiro Presidente da República de Moçambique, líder da luta de libertação e símbolo nacional. Passou parte da sua vida na Mafalala, onde muitos movimentos se organizaram discretamente.

Ricardo Chibanga

Primeiro toureiro africano a ganhar projeção internacional, também com raízes na Mafalala.

Fany Mpfumo

Músico moçambicano, um dos grandes responsáveis pela difusão do marrabenta.

Joaquim Chissano

Antigo Presidente da República de Moçambique, intelectual e figura central da diplomacia.

Pascoal Mocumbi

Político, médico e antigo Primeiro-Ministro, também ligado ao bairro.

Estas personalidades levaram o nome da Mafalala ao mundo e como resultado, contribuíram para moldar a identidade nacional.

Locais de interesse na Mafalala

Actualmente, o bairro é um destino cultural imperdível para quem visita Maputo. Entre os pontos mais famosos destacam-se: Casa Noémia de Sousa, Casa Samora Machel, Casa José Craveirinha (Comoreanos), Casa Joaquim Chissano, Casa Fany Mpfumo, Casa Ricardi Chibanga, Casa Eusébio da Silva Ferreira, Casa Rui de Noronha, Casa-Museu José Craveirinha, Mesquita Iti Faque, Mesquita Baraza, Tufo da Mafalala, Cantina Mufundisse, Cantina Gato Preto, Mercado da Mafalala.

Mafalala: onde Moçambique respira identidade

A Mafalala não é apenas um bairro, é uma aula de história a céu aberto. É arte, música, política, poesia, fé e comunidade. Acima de tudo, é o retrato fiel de um país que vive entre tradição e modernidade, entre luta e celebração, sempre com a sua alma de pé.


Fotografia de Tobias Neumann

Cada espaço guarda uma história.

Toda a rua é um capítulo.

As pessoas são uma bibliotecas vivas.

E no meio de tudo isso, permanece aquilo que nunca mudou: gente boa, orgulhosa das suas raízes e pronta para acolher quem chega…

Swilo xa Utomi

Revista online que apresenta conteúdos sobre a vida em Moçambique

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